segunda-feira, 21 de março de 2011

Advogado deve trocar eficiência por eficácia


   Desde a faculdade, sempre ouvi de professores, amigos e colegas de profissão que “tempo é dinheiro”. Em minha opinião, tempo é mais que dinheiro. O dinheiro pode ser guardado, poupado, investido e multiplicado. O tempo só pode ser gasto e isso deve ser feito com inteligência e eficácia.

   Partindo dessa premissa, sempre questionei se tempo é a “mercadoria” que nós advogados temos para oferecer. A taxa-horária é fundamental para a administração científica no estudo dos tempos e movimentos, onde se busca alcançar a melhor maneira de executar uma tarefa e elevar a eficiência do operário. Não faz sentido esse modelo para remunerar pessoas capacitadas a proverem serviços intelectuais e que agreguem valor. Afinal, o que o advogado faz? Se uma ideia surge na hora do almoço, no bate-papo com os amigos ou em uma noite de insônia, como deve ser cobrada?

   O negócio por “hora vendida” está globalmente disseminado e é aparentemente fácil de ser gerenciado. Sua receita aumenta à medida que a quantidade de horas efetivamente debitadas dos clientes se aproximar das horas debitáveis de toda a equipe (sócios, advogados e estagiários). Porém, essa equação tem consequências negativas que muitas vezes são imperceptíveis aos sócios do escritório.

   Quando a taxa de utilização da equipe é plena, a capacidade de buscarem bons e novos clientes é limitada. Como estão todos ocupados, não há praticamente tempo para pesquisar novas áreas a explorar ou antecipar necessidades futuras de clientes atuais e se preparar para satisfazê-las.

   Trata-se, assim, de um modelo de negócios reativo e não proativo, por não avaliar os desdobramentos futuros, possíveis alterações no ambiente de negócios, na economia e nas demandas que virão. Isso acaba levando a disputa do mercado, pelos escritórios, para o campo do menor preço, desvalorizando a competência profissional e desestimulando o investimento em ideias inovadoras que poderiam influenciar positivamente na cadeia de valor. E depois não se sabe por que a advocacia virou commodity.

   As consequências desse modelo trazem reflexos negativos para a equipe, como: estresse, saúde debilitada e insatisfação pessoal. Acarreta também um reflexo negativo no clima organizacional com o aumento da taxa de rotatividade, baixa qualidade do trabalho executado e, principalmente, insatisfação dos clientes, os maiores prejudicados.

   Não quero apregoar a abolição do uso do timesheet. Ele é uma importante ferramenta para o planejamento estratégico e o gerenciamento do escritório. Permite individualizar a contribuição de cada área da sociedade, avaliar o desempenho individual de cada colaborador e, principalmente, conhecer as variáveis determinantes da lucratividade do escritório. Mas, vinculá-lo diretamente ao preço cobrado aos clientes pelos serviços não é a melhor ideia. Os clientes não compram horas quando contratam um advogado. Eles compram resultados, expectativas, esperanças e soluções para seus problemas.

   A proposta que apresento é substituir a taxa horária por preço fechado ou por um percentual do benefício gerado, onde a precificação está diretamente relacionada com o valor entregue ao cliente. É trocar o modelo de eficiência, pela eficácia. Eficiência é fazer as coisas corretamente de acordo com os método e procedimentos pré-estabelecidos. Ela está voltada para a melhor maneira pela qual as coisas devem ser feitas ou executadas (métodos) e não com os fins. O alcance dos objetivos visados é um assunto ligado à eficácia. Na medida que o profissional passa a avaliar o alcance dos resultados, isto é, quando ele verifica se as coisas bem feitas são as que realmente deveriam ser feitas, ele estará se voltando para a eficácia. Eficácia é uma medida do alcance de resultados, enquanto a eficiência é uma medida da utilização dos recursos nesse processo.

   Hoje, o que os clientes mais procuram no mercado da advocacia são parceiros comprometidos com resultado. Encontrar esse tipo de profissional é coisa rara. Portanto, se pretende continuar sendo eficiente, continue vendendo horas. Mas se quiser ser eficaz e se tornar um parceiro para o seu cliente, comece a se comprometer com o resultado. Sabemos que os advogados são resistentes a mudanças, mas esse é o momento de se pensar na profissão. E só o tempo dirá quem tem razão.

Por José Nilton Cardoso de Alcantara


quinta-feira, 17 de março de 2011

Começou a ciberguerra

As redes sociais foram a base das revoltas árabes

 
 
A publicação de informações secretas propiciará uma luta entre a transparência exigida aos governos e seu "legítimo direito" as manterem secretas
 
"Os cidadãos de Tunes não precisavam do Wikileaks para conhecer o grau de corrupção dos governantes e seu entorno, mas o impacto das informações incitou, sim, o mal-estar prévio nesse país, que foi o detonador das revoltas seguintes no mundo árabe". O diretor do El País, Javier Moreno, acredita que os documentos publicados foram um fator coadjuvante das revoluções nesses países. Ele atribui o papel determinante "às redes sociais em seu conjunto, à nova sociedade da informação, à velocidade com a qual as notícias circulam: essa foi a base sobre a qual se construiu esse movimento".

Ele opina que, no resto do mundo, a publicação dessas informações secretas propiciará uma luta entre a transparência exigida aos governos e seu "legítimo direito" a se manterem secretos. "Os governos tentarão proteger melhor os seus segredos, e as organizações e os periódicos tentarão ter mais acesso a eles do que no passado".

Do ponto de vista jornalístico, Javier Moreno considera que esse processo informativo, coordenado com as outras quatro publicações de referência internacional, significou uma "injeção de adrenalina e de orgulho profissional para o El País". "Aplicamos nosso melhor esforço para produzir grande jornalismo. E, para os leitores, foi um fluxo de informação interessante, em profundidade, bem contextualizada. Conheceram grandes histórias nacionais e internacionais cujos perfis não vislumbrávamos totalmente, e algumas absolutamente novas de impacto para a política espanhola".

Ele não acredita, no entanto, que essa aventura profissional, de grande repercussão na web, traga uma nova luz para definir um modelo de negócio. "Entre os periódicos participantes, cada um aplica um modelo e tem estratégias diferentes. Há páginas de Internet abertas, outras pagas... Faríamos mal em tentar extrair uma lição comum sobre o modelo de negócio para sustentar o jornalismo que queremos fazer. Mas, quando se difundiram os telegramas, houve um aumento do tráfego na web, tanto na Espanha quanto na América Latina, e a audiência é importante", sustenta.

"Ser capazes de se converter em um jogador global é vital para estabelecer um modelo de negócio. Os cidadãos respondem recorrendo às páginas e consumindo informação".
 
A reportagem é do jornal espanhol El País. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


quarta-feira, 16 de março de 2011

Como deve ser bom ser moderno de verdade!

        Você tem de tudo que o dinheiro pode comprar, mas trabalhou duro para ter tudo isso, não é verdade? Por isso só matando se alguém tentar atacar o seu patrimônio, não é mesmo? Você sempre se faz perguntas? Alguma das respostas é afirmativa?
        Sustenta que “tá o maior terror. Os vagabundos tão soltos, aprontando. Os homens de bem estão trancados dentro de casa, apavorados”. Você acha que é isso mesmo, ou não acha nada, não entende dessas coisas? “Político é tudo igual. Política é a mesma coisa, cara. Política Pública, política privada, isso pra mim não faz a menor diferença”.
        Ser moderno de verdade deve ser o máximo! Um automóvel, uma geladeira e, supremo deleite: uma TV! Isso, se  você tem uma TV, você já é moderno de verdade e olha que não é apenas uma questão de modernidade é de pertencimento também. Você não precisa sequer comprar a revista semanal que já pensa o que você deve pensar por um preço insignificante, não é verdade?
        Aliás, termine sempre as expressões de senso comum com um indefectível “não é verdade?” Se você puder emprestar um érri fricativo paulistano, então (bem nasalado) fica perfeito (olha o érri aqui de novo).
        Be cool! Até o direito penal cool você verá na modernidade, esta que está por aí, ao redor, na espreita esperando esperta e cautelosa, preguiçosamente. No problem, man. Ele quer sua alma e, sobretudo, sua capacidade de consumo.
        Ser moderno de verdade é poder exercitar ao infinito o “canhoto” prazer de consumo? É isso? Então a vida é esse cisco no olho, essa remela? Ser moderno é não ter que se preocupar com nada, exceto com a conversa de gestão e modelos de metas e resultados, engenharia de produção, esses detalhes?
        Então minha avó era moderna e não sabia. Coitada da minha avó. Quando “A FAMÍLIA TRAPO” começava, ela saía da sala, “porque não gosto de maldade”.
        Pergunte à sua avó que programa de TV era “A FAMÍLIA TRAPO”, tempo em que a gente vivia uma ditadura civil-militar e a imprensa dizia que era welfare state.
        E quem acredita em pós-tudo? Pós-modernidade, pós com torradas sem manteiga e café sem cafeína.
        E carnaval  pós-carnaval a gente batendo o triste recorde de mortos e feridos nas estradas. Algum imbecil irá propor mais rigor nas leis penais. Outro vai dizer: “é isso mesmo!”
        Mais coitados do que minha avó. Pensam que podem fazer ressuscitar alguém com Direito Penal.


Notas:
O Autor, Prof. Virgílio de Mattos, é integrante do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

quinta-feira, 3 de março de 2011

Uma ruptura necessária na era do facebook

   A história da humanidade é feita de rupturas e da necessidade de tecer alianças desde os tempos remotos. Com efeito, percebe-se na própria bíblia que toda a caminhada do povo de Deus é marcada pelo rompimento da Aliança entre as tribos de Israel e Javé. Tal ruptura se manifesta nos dias de hoje pelo desrespeito para com a natureza, o meio ambiente e todos os ecossistemas, bem como para com o Criador.

   Sem embargo, há ruptura necessária, tendo em vista a necessidade de abertura a novos horizontes num mundo em conflitos e em busca da liberdade. Os acontecimentos no Oriente Médio e na Líbia e demais Estados já libertados das temidas ditaduras têm revelado ao mundo que nada poderá mais apagar a chama da liberdade que faz cair as colunas de bronze da legitimidade dos impérios do petróleo no meio de uma juventude pobre e sem esperança de dias melhores, revoltada pelas injustiças sociais e pelos privilégios de uma classe de intocáveis e insensíveis ao clamor dos oprimidos.

   Tal revolta contra a “oligarquia real e religiosa” tornou–se possível graça ao poder da tecnologia, sobretudo dos novos meios de comunicação, tais como o facebook, o twitter e o celular. A flagrante violência dos súditos é compreensível diante da cumplicidade e do silêncio das grandes potências em condenar as políticas discriminatórias dos monarcas e presidentes ditadores. A guerra do petróleo sempre foi o pulmão da economia mundial e da industrialização do ocidente. Por essa razão, as violações sistemáticas dos direitos humanos eram desconsideradas ou ignoradas em nome dos interesses financeiros. A aceitação da Líbia no concerto das nações havia sido condicionada pela indenização das famílias das vítimas de Lockerbie e da entrada de investimentos estrangeiros naquele país.

   A dinâmica própria da “revolução” revela que durante anos tanto os aliados ocidentais como os regimes ameaçados pelas manifestações desprezaram as questões morais ou éticas vinculadas às necessidades básicas de um cidadão.

   O ser humano rejeitado, marginalizado e excluído da partilha das riquezas geradas pelo petróleo está no centro das reivindicações sociais. A humanidade evolui para uma globalização efetiva na busca de unidade em torno do objeto perseguido: o fim dos privilégios dos reis, príncipes e presidentes ditadores.

   Os apelos das multidões lesadas há décadas trazem em seu bojo “a incompletude e a impressão do estar a caminho.” Efetivamente, as revoltas vividas não têm mais a aspereza de meras reclamações de drogados ou terroristas, mas retratam as aspirações mais profundas das populações a caminho da liberdade e de “novos céus e novas terras” onde não haverá mais abismos entre famílias reais extremamente ricas e os súditos definitivamente pobres. É hora de acabar com a demência humana para abraçar a era da sapiência universal.

Sebastien Kiwonghi é advogado e professor de Direito Internacional e Metodologia da Pesquisa na Escola Superior Dom Helder Câmara. Padre Verbita graduado em Filosofia pelo Institut de Philosophie Saint Augustin, IPSA, Zaire (África). Graduado em Teologia pelo Institut de Théologie Eugène de Mazenod, ITEM, Zaire (África). Graduado em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais Vianna Júnior de Juiz de Fora (MG). Especialista em Direito Civil e Processo Civil, em Direito do Trabalho e Previdenciário. Mestre e doutorando em Direito Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.