Você tem de tudo que o dinheiro pode comprar, mas trabalhou duro para ter tudo isso, não é verdade? Por isso só matando se alguém tentar atacar o seu patrimônio, não é mesmo? Você sempre se faz perguntas? Alguma das respostas é afirmativa?
Sustenta que “tá o maior terror. Os vagabundos tão soltos, aprontando. Os homens de bem estão trancados dentro de casa, apavorados”. Você acha que é isso mesmo, ou não acha nada, não entende dessas coisas? “Político é tudo igual. Política é a mesma coisa, cara. Política Pública, política privada, isso pra mim não faz a menor diferença”.
Ser moderno de verdade deve ser o máximo! Um automóvel, uma geladeira e, supremo deleite: uma TV! Isso, se você tem uma TV, você já é moderno de verdade e olha que não é apenas uma questão de modernidade é de pertencimento também. Você não precisa sequer comprar a revista semanal que já pensa o que você deve pensar por um preço insignificante, não é verdade?
Aliás, termine sempre as expressões de senso comum com um indefectível “não é verdade?” Se você puder emprestar um érri fricativo paulistano, então (bem nasalado) fica perfeito (olha o érri aqui de novo).
Be cool! Até o direito penal cool você verá na modernidade, esta que está por aí, ao redor, na espreita esperando esperta e cautelosa, preguiçosamente. No problem, man. Ele quer sua alma e, sobretudo, sua capacidade de consumo.
Ser moderno de verdade é poder exercitar ao infinito o “canhoto” prazer de consumo? É isso? Então a vida é esse cisco no olho, essa remela? Ser moderno é não ter que se preocupar com nada, exceto com a conversa de gestão e modelos de metas e resultados, engenharia de produção, esses detalhes?
Então minha avó era moderna e não sabia. Coitada da minha avó. Quando “A FAMÍLIA TRAPO” começava, ela saía da sala, “porque não gosto de maldade”.
Pergunte à sua avó que programa de TV era “A FAMÍLIA TRAPO”, tempo em que a gente vivia uma ditadura civil-militar e a imprensa dizia que era welfare state.
E quem acredita em pós-tudo? Pós-modernidade, pós com torradas sem manteiga e café sem cafeína.
E carnaval pós-carnaval a gente batendo o triste recorde de mortos e feridos nas estradas. Algum imbecil irá propor mais rigor nas leis penais. Outro vai dizer: “é isso mesmo!”
Mais coitados do que minha avó. Pensam que podem fazer ressuscitar alguém com Direito Penal.
Notas:
O Autor, Prof. Virgílio de Mattos, é integrante do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br
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